De Nova York para a Floresta Amazônica foram algumas horas de voo. Mas quando o fotógrafo Valdir Cruz saiu dos Estados Unidos, onde morava, há 17 anos, para fotografar os índios da Amazônia, não supunha que a viagem teria consequências tão definitivas em sua vida. “Quando cheguei à floresta, descobri que sou muito brasileiro. Não tinha conhecimento sobre a questão indígena e isso mudou minha filosofia de vida. Até então, eu não me preocupava com os problemas sociais”, conta o paranaense que pisou em solo americano em 1978, perseguindo o sonho de uma vida melhor, sem nunca ter segurado uma câmera fotográfica nas mãos.

Os seis anos de trabalho com diversas comunidades indígenas renderam dois livros sobre os ianomâmis: Faces da Floresta, em 1997, e Faces da Floresta – Os Yanomami, publicado pela Cosacnaify, em 2004. Mais que retratar estética ou jornalisticamente a realidade desse povo, o fotógrafo aderiu à causa e buscou o apoio (especialmente assistência médica e sanitária) de governos e de instituições. “O meu foco era o cotidiano e as precárias condições de saúde dos índios”. O livro rendeu matéria no NY Times e muitas críticas positivas.
Mas a natureza sempre esteve no imaginário do menino que nasceu e cresceu em Guarapuava, no sul do Paraná. “Vivi bem livre, bem na mata e nos rios... Final de semana para mim era acampar, caçar, pescar. Foi um grande privilégio viver numa cidade do interior nos anos 1960, porque tínhamos muita liberdade. Algo que não se encontra hoje”, lembra.
Para Valdir Cruz foi natural, portanto, viajar pelo interior do Estado de São Paulo para fotografar as 80 diferentes espécies de árvores existentes em 30 cidades paulistas, em locais, às vezes, de difícil acesso, como no meio da Mata Atlântica. Várias pessoas integraram o projeto que se tornou livro e exposição. Mas para percorrer os 16 mil quilômetros, às vezes em condições precárias, Cruz teve a companhia de Flores Welle, grande conhecedor de plantas e árvores, e de Sabrina Pestana, assistente que acompanhou o trabalho desde a fase de pré-produção até a finalização técnica em Nova York. O resultado foram 750 fotos. Dessas, Cruz selecionou 60 imagens para o livro Raízes. Trinta delas integraram exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo e depois passaram para o acervo do Governo do Estado de São Paulo na mostra Árvores de São Paulo. “Tivemos 11 meses (entre maio e final de setembro de 2009) para fazer a pesquisa de campo, fotografar e selecionar o material. Foi uma maratona”, explica o fotógrafo.
E o trabalho segue dando frutos. Em abril deste ano, a galeria Throckmorton Fine Art (que o representa nos EUA) vai lançar, simultaneamente, os livros Raízes e Bonito- Confins do Novo Mundo, seu mais recente projeto, ambos acompanhados de exposições.
TRABALHO SOCIAL
Em cada rosto ou flagrante da natureza, Valdir Cruz revela o olhar atento, generoso e cúmplice com a realidade social. “Se você observar meus livros, sempre vai encontrar um aspecto sobre alguma deterioração da comunidade”.
Mas isso não é tudo. Patrocinado pela Fundação Stickel para produzir o livro O Caminho das Águas, publicado pela Cosacnaify, em 2007, e para a primeira mostra individual, realizada no Palácio dos Bandeirantes, Cruz também vai inaugurar a primeira exposição de arte na Vila Brasilândia, em São Paulo, com a mostra Águas e Árvores. Além de 16 fotos, o fotógrafo disponibilizará seus nove livros e dará palestra para a comunidade apoiada pela Fundação. “É minha contrapartida social”, destaca.
Autodidata, Valdir Cruz revela as influências que construíram seu olhar. “Minha mente sempre vai se voltar ao mestre Ansel Adams quando penso em fotografia de natureza”. Rigoroso e sofisticado, o fotógrafo atribui a George Tice tudo o que aprendeu sobre fotografia em preto e branco (sua opção e excelência). “Sob sua supervisão, trabalhei nos anos de 1986/87 imprimindo nada menos que os originais de Edward Steichen, que até então nem sabia que era o pai da fotografia americana”.
Os próximos passos? Finalizar o nono livro Guarapuava, projeto acalentado desde que revelou seu primeiro filme, em 1981. “Tenho 6 mil negativos dessa região. Acabei de chegar de lá, onde fiquei fotografando e fazendo pesquisas. Há muitos retratos, paisagens, o povo do campo, o tropeirismo. Tenho imagens fortíssimas, que são o tipo de retrato que gosto de fazer”.
Indagado sobre o Ano Internacional das Florestas, dá um recado. “Acho que, neste mundo apressado, não se tem tempo para observar uma imagem. Há muitos livros que retratam a situação ambiental, nacional e internacional, mas eles precisam ser lidos, apreciados e entendidos. A conscientização ambiental se dá por meio da educação. Caso contrário, vamos seguir o caminho que hoje nos é apresentado, ou seja, a destruição!”.
- ÁGUAS E ÁRVORES
De 02 a 25/03 na Casa de Cultura da Brasilândia - Praça Benedicta Cavalheiro, São Paulo/SP
Horário: segunda a sexta-feira, das 9h às 17h. Entrada franca
- ÁRVORES DE SÃO PAULO
Data: permanente
Local: Palácio dos Bandeirantes - Avenida Morumbi, 4.500 – Portão 2, São Paulo/SP.
Horário: de terça a domingo, das 10 às 17 horas
Informações: (11) 2193.8282 / email: monitoria@sp.gov.br
Agendamento eletrônico pelo email: monitoria@sp.gov.br. Entrada franca
Fonte: Planeta Sustentável
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