Está em cartaz no Brasil a exposição Anticorpos, retrospectiva da carreira de Fernando e Humberto Campana. Organizada pelo Vitra Design Museum, da Alemanha, ela reúne 20 anos (1989/2009) da produção exclusiva, de protótipos, industrial e de pequena tiragem desses designers brasileiros com impressionante audiência no exterior. Objetos pessoais e colagens bidimensionais foram produzidas especialmente para a mostra.
Arte utilitária, mobiliário, vídeos sobre o processo artesanal de fabricação dos modelos e das peças únicas, somando cerca de 200 objetos em exibição, compõem o material da rica mostra sobre os irmãos Campana que teve, em 20 de abril de 2011, um simbólico début brasileiro.
Ela ocupou o museu que a Fundação Vale implantou em 1998 no Espírito Santo, em meio à estranha e monumental paisagem circundante da baía portuária de Vila Velha - misto de natural e industrial -, em galpão que outrora, junto a uma estação ferroviária, serviu para a estocagem de grãos.
Grandes carretéis em que se enrolam cabos elétricos de utilização fabril, com diâmetro da ordem de quatro metros, ladeiam o acesso ao museu e fazem interessante contraponto à natureza da margem navegável beirando a instituição.
É como se o cenário fosse de apropriação criativa do cotidiano, de estranhamento artístico, que tanto anima a produção dos designers.
Com curadoria de Mathias Schwartz-Clauss, a exposição Anticorpos: Fernando e Humberto Campana 1989-2009 foi apresentada pela primeira vez na Europa, entre setembro de 2009 e fevereiro de 2010.
Ela surgiu da decisão do Vitra Design Museum de escolher, em 2009, a produção dos designers brasileiros como mote para a comemoração dos seus 20 anos de existência.
A mostra está dividida em nove setores de natureza formal, ou seja, referentes aos modos como os designers se apropriaram de materiais ao longo de sua carreira independente da escala produtiva, seja na peça única ou na produção seriada.
São eles: Agrupamentos (junção seriada de materiais normalmente alheios ao universo do design de produtos, como as poltronas de EVA - acetado de vinil etileno - ou de animais de pelúcia); Fragmentos (colagens de materiais reciclados: a famosa poltrona Favela, de tiras de madeira); Orgânicos (relativo à forma orgânica, inspirada em seres vivos: o monumental sofá Boa, de tiras serpenteadas de veludo); Planos Flexionados (viés geométrico, de tendência racionalista ou de volumetria pura: a divertida mesa Inflável); e Objetos de Papel (inspirados nos papelões de embalagens recicladas: o painel Tabla).
Em conjunto, esses núcleos testemunham por onde caminhou o desejo de surpreender dos designers nestas duas décadas de carreira.
A maior parte dos itens provém do acervo dos Campana, o que dá ao visitante a possibilidade de conferir protótipos de peças que se tornaram marcas de sua identidade criativa. Há, por exemplo, duas unidades da cadeira Vermelha, uma já puída, mas com volumetria mais de concha, e outra formalmente mais estreita e alta, adaptada às exigências da produção seriada.
Trazer a exposição para o Brasil foi uma ideia acalentada pela Fundação Vale desde 2008, pouco depois de seu diretor, Ronaldo Barbosa, ter visitado a mostra My Home, de autoria dos designers brasileiros, também no Vitra Design Museum.
Impressiona a linguagem onírica com que se misturaram a fachada de fibra natural e a instalação de fios de led no interior do espaço expositivo, um trabalho de natureza similar às intervenções artísticas - site specifics - que o museu de Vila Velha abriga no galpão dedicado à arte contemporânea.
“Há tempos pensávamos em abordar o território do design de autor, sobretudo em função do êxito social dos projetos educativos que complementam nossas exposições de arte”, relata Barbosa.
A intenção de mostrar a jovens capixabas as potencialidades plásticas e poéticas de materiais ordinários e cotidianos revelou-se, assim, afinada com a inspiração artesanal do trabalho dessas estrelas internacionais do design brasileiro.
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