Sempre atenta ao que acontece no design e nas mídias nacional e internacional, a Go-To-Idee pediu a 2 renomados designers que comentassem a marca escolhida para representar os jogos da Copa do Mundo de Futebol de 2014.
Tanto o processo de escolha, quanto a marca em si, deixaram os profissionais nacionais indignados com a conduta adotada pela Confederação Brasileira de Futebol, CBF, na condução do processo.
Ouvimos influentes designers nacionais que afirmaram que, além do processo não ter sido transparente, foi entregue a uma agência de publicidade e não a um designer.
Leia a seguir a íntegra da entrevista feita com Alexandre Wollner, um dos pioneiros do design gráfico brasileiro, e Freddy van Camp, designer, professor da Esdi e designer da VanCampDesign, eleito como representante do design no Conselho Nacional de Cultura.
Go-To-Idee: Que impressão lhe passa a logomarca da Copa 2014?
Alexandre Wöllner (AW): A marca criada para representar a Copa 2014tem nada a ver com design, e sim uma ilustração artística ou uma caricatura. O que se lê representa a vergonha que sentimos, significa a expressão cultural do nosso nível de comunicação!
Freddy van Camp (FvC): Ela me passa a impressão de algo mal feito, apressado, sem acabamento, além de contraditório. Se estamos falando de futebol, porque tantas mãos, quando se sabe que é justamente proibido se envolver as mãos no jogo e somente o goleiro tem autorização para pegar a bola com as mãos. Se fosse basquete ainda daria para entender, eventualmente. Como todo o processo de escolha foi absolutamente secreto e pouco transparente, só liberaram a autoria nos momentos finais da apresentação ao público, ficou a impressão de um grande arranjo, por baixo dos panos, como sempre estamos acostumados nos negócios da CBF. Eu publiquei no Facebook um comentário meio profético de que “Todo mundo metendo a mão” seria o símbolo mais apropriado da Copa de 2014. Pelo desenrolar dos preparativos pode ser que ele se confirme. Eu, sinceramente, espero que não!
Go-To-Idee: Considera que ela reproduz graficamente o espírito brasileiro da Copa?
AW: Copa de que? Teatro, caricatura, ilustração, historia em quadrinhos? Ping-Pong? Bolsa de Valores? Tudo, menos futebol.
FvC: O espírito brasileiro pode ser expresso de diversas formas e pode ser que alguém o identifique nestas formas. Acho que a solução proposta representa muito mais um espírito africano, pelo uso das cores, das formas e da tipografia que se assemelha muito a utilizada no logo da Copa de 2010. O vermelho, por exemplo, nada tem a ver com as cores brasileiras e não tem justificativa apropriada de sua utilização. As formas gráficas empregadas, mãos, curvas, tipografia, lembram as utilizadas em histórias em quadrinhos, fazendo o resultado ser manualístico demais sem ter nenhuma justificativa para isso. Daí as diversas interpretações já levantadas para o símbolo e sua construção.
Go-To-Idee: Concorda que essa representação tenha sido requisitada a uma empresa estrangeira?
AW: Não foi requisitada a uma empresa estrangeira e sim a uma agência brasileira dirigida por um mero publicitário que confunde publicidade e merchandising e não respeita a profissão de design. O designer não se mete a produzir publicidade e merchandising por respeito a estas atividades profissionais.
FvC: Na verdade a concepção foi de uma empresa nacional, a agência de publicidade África (daí o espírito africano?!?) do publicitário Nisan Guanaes, com relacionamento muito conhecido no meio governamental. A afirmação de ser uma empresa estrangeira se deve ao fato de ter sido registrada na Europa por uma empresa francesa que presta serviços a Fifa, além disso ter sido veiculado como um boato junto ao “vazamento” do logotipo na internet. Acho que isso foi parte desse mecanismo de acobertamento e segredo da concepção que nos deixa estarrecidos, por ainda ser praticado nos dias atuais. É comum os publicitários fazerem este tipo de arranjo, oferecendo o serviço de design por baixo preço, ou até mesmo de graça, para assim assegurar a mídia e a veiculação, que é onde eles realmente ganham.
Go-To-Idee: O design gráfico brasileiro é respeitado lá fora como o design de móveis, por exemplo?
AW: Que móveis? Fora dois ou três reconhecidos? Ou os artesanais lançados em feiras comerciais de moda?
FvC: O design brasileiro é muito respeitado aqui dentro e lá fora. O design é um negócio pujante, especialmente o gráfico, com empresas de grande porte atuando em mercados daqui e de fora. Há centenas de empresas de design no país, como podem atestar as associações ADG e ABEDesign. Só no Rio de Janeiro temos mais de uma dezena de empresas de design com 30 a 100 funcionários, sem contar as muitas de São Paulo, de Curitiba, de Belo Horizonte, etc. Há empresas de design no país com mais de 200 funcionários, que trabalham para todos os setores da economia com capacidade reconhecida, conquistando prêmios internacionais. Não há necessidade de se utilizar os serviços de publicitários para execução de projetos de design gráfico, tendo esta capacidade instalada.
Go-To-Idee: Outras considerações
AW: As universidades que preparam designers parece que aprovam; por que não se manifestam contra o desrespeito a profissão? Nada falam?
FvC: Já tivemos processo de escolha de logotipos de forma mais racional e equilibrada no país. A candidatura para as Olimpíadas, e mesmo o processo de elaboração do símbolo para as Olimpíadas de 2016 tiveram outro caráter, com a elaboração de editais, contratação de empresas de design e com procedimentos transparentes e sistemáticos, o que assegura um resultado mais adequado, com menor resistência em todos os níveis, com maior probabilidade de dar certo. Demonstram que dá para fazer melhor, sem dúvida!
A equipe da Go-To-Idee agradece a colaboração de Freddy van Camp e Alexandre Wöllner pela entrevista e espera que as escolhas feitas por nossos governantes sejam mais transparentes e representem melhor nosso país.