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Entrevistas

Conversa com Edna dos Santos Duisemberg sobre economia criativa

Genebra, 27/01/2009



Edna dos Santos-Duisemberg, Chefe do Programa Mundial da Economia Criativa da ONU/ UNCTAD, é uma brasileira que mora em Genebra há mais de 18 anos.

Edna trabalhou estreitamente com o Ministro Ricúpero quando ele foi Secretário Geral da UNCTAD em 2004. Como a UNCTAD é um organismo internacional que promove o desenvolvimento e a integração econômica entre todos os países e portanto, foi então levantada a questão das relações entre arte, cultura e suas perspectivas econômicas. Ainda nesse ano, aconteceu em São Paulo o Unctad XI Consensus que estimou o mercado da indústria criativa (artesanato, música gravada, cinema, televisão, moda) em 7% do GDP mundial. A projeção do potencial de crescimento do setor chega a 11% para 2015, o que significa ganhos auferidos com a diversidade cultural dos povos contribuindo para a redução da pobreza. (Millenniun Development Goals)

Edna define o conceito de Economia Criativa usada no Relatório, como sendo uma “relação ou interface entre economia, tecnologia e a sociedade utilizando a criatividade como input básico. Como os produtos possuem conteúdo criativo, idéias transformadas em produtos e serviços tem objetivo de mercado com conteúdo cultural e impacto econômico e social”.
“O comércio de produtos e serviços da economia Criativa gera U$ 424 bilhões /ano.
É um dos setores que mais gera dinheiro no mundo cujo potencial de geração de economia é enorme e não depende de avanços tecnológicos”, continua Edna.

A linha de desenvolvimento da EC possui três pilares na Organização:
1) Construção de plataformas de debates intergovernamentais;
2) Orientação nas análises políticas para identificação do pontos chave;
3) Cooperação técnica na assistência aos países em desenvolvimento na comercialização e exportação de sua produção.

O interesse de Edna dos Santos-Duisemberg pelo assunto fez com que se dedicasse a pesquisar o setor partindo do pressuposto que criadores independentes causam enorme impacto econômico e acabam dando origem ao empreendedorismo de base cultural.

Organizou vários debates em muitos países (Senegal, Brasil, China, Gana) onde foram discutidos seis temas:
1. Políticas interministeriais de inovação;
2. Promoção de ganhos comerciais resultante de produtos e serviços criativos;
3. O papel do Direito de Propriedade Intelectual (IPRs) e dos bens e Tecnologias de Comunicação e Informação (TCI) como veículos da Economia Criativa;
4. Adoção de políticas econômicas na preservação da diversidade cultural; 5. Construção de sinergias e capacidade criativa para cooperação internacional;6. Captação de indicadores econômicos para a industria criativa.

Todos os temas, amplamente discutidos com economistas do mundo todo teve como resultado a publicação do Relatório de Economia Criativa (EC, 2008).
Edna fala sobre o resultado do seu trabalho como uma forma de difundir e disseminar a EC, abrindo um grande debate com o empresariado, governos e universidades. No caso do Brasil, ela destaca o potencial de desenvolvimento de atividades do setor já que o Brasil é tão rico em criatividade.

Estudo já realizados pela Unesco em países como a Colômbia e a Índia focalizavam o artesanato como forma econômica dessas regiões.
A aproximação entre o design e o artesanato na criação de uma identidade regional e nacional é um dos objetivos do Relatório que apresenta um tema muito próprio dos brasileiros: o carnaval na busca da autenticidade com resultados criativos.
“O carnaval é um exemplo extraordinário quando se pensa que nessa manifestação popular está contida a música, as representações alegóricas, o vestuário cênico, elementos cenográficos, joalheria, direção de arte (carnavalescos)”,etc. lembra Edna.

“Para a montagem do relatório foram primeiramente identificados produtos e serviços relacionados a Economia Criativa e buscou-se números que os caracterizassem, fazendo um mapeamento desses itens, o que é bastante difícil e oneroso” lembra Edna.
“A busca de números estatísticos se justifica pois somente dados estatísticos podem realmente sensibilizar os governantes”, continua ela. “No Brasil foram utilizados dados do IBGE, que considero ainda muito pouco significativos. Por exemplo: o IBGE tentou medir o consumo de música no Brasil através do número de cds e aparelhos de TV vendidos. Esses números, porém, estão longe de demonstrar a realidade e ainda subestimam o potencial criativo desse nicho”.

“Foram relacionados no Relatório 250 produtos e incluídos, pela primeira vez, dados de Artesanato e Design. Ressalta-se que a Unesco nunca tinha feito isso antes.
Pelo tipo de dados pesquisados, no entanto, torna-se difícil identificar, em números, o potencial criativo desses tipos de produto”, diz Edna.

Ela se entusiasma quando comenta: “Foi possível identificar através dos números do Relatório que dois países tem o mercado criativo mundial. O primeiro deles é a China, que é o maior exportador do mundo. Porém é exportador de produtos Made in China e não produtos concebidos na China. (produtos sem propriedade intelectual.....) Em segundo lugar apareceu a Itália, justamente por causa do Design. Não foram os Estados Unidos ou o Japão em segundo lugar, mas a Itália. Vejam só como a economia criativa e o design são importantes em nível mundial”.

“Hoje discute-se muito até que ponto os produtos fazem concessão à internacionalização do gosto na diferenciação de produtos banais”, continua Edna.
Cita o exemplo da IKEA que difunde design escandinavo ao mesmo tempo que cria design para determinados povos. Como estão no mundo todo, transformaram-se em uma grande empresa de economia criativa.

O design de interior (móveis, objetos, utensílios), moda, jóias, brinquedos fazem parte da economia criativa assim como os serviços onde se coloca a arquitetura e o design gráfico além de novas mídias.

Em 2006, Edna esteve como Conferencista convidada na Expo Gestão realizada em Joinville. Lá falava-se em dois grande incentivos a serem criados no estado de Santa Catarina: um para o design e outro para o cinema.
Recentemente, realizou uma palestra na PUC/São Paulo (16/02/2009), que reuniu professores, pesquisadores, empresários e profissionais ligados ao Terceiro Setor, para estudar cadeias produtivas criativas e novas linhas de financiamento, sempre com foco no desenvolvimento econômico através da Economia Criativa proporcionando a geração de mais empregos e inclusão social.



Obrigado Edna pela entrevista.
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