Dari Beck fala sobre o design como estratégia de negócios
Entrevista com Designer Dari Beck – Estudio Flexiv de Design
Nos últimos anos, muitas empresas têm investido em Design como estratégia para alcançar bons resultados nos negócios. Na área de mobiliário, novas tendências são lançadas a partir de pesquisas e desenvolvimento de produtos, com preocupações centradas no usuário final, o ser humano. Um bom exemplo disso é a Flexiv, empresa de Curitiba que, através do Estúdio Flexiv de Design, desenvolve a cada ano, novas propostas para o segmento de mobiliário para escritórios. O Estúdio Flexiv foi idealizado por Ronaldo Duschenes, arquiteto, designer e presidente da Flexiv e é comandado pelo designer Dari Beck, que nos concede a entrevista a seguir:
Como você encara a relação entre design e ergonomia?
Uma das coisas que agente tem como base prá ter competição é que a empresa precisa ter um diferencial. A primeira situação que se tem é a relação fria de vender móvel. E têm n empresas que vendem móveis: ou residencial ou prá escritório. Nós da Flexiv partimos do princípio de que não vendemos móveis, nós vendemos a solução. A solução vai trazer o quê, para quem estiver adquirindo esse móvel? Uma produtividade maior! Então é um investimento! É a mesma coisa se eu estivesse investindo em tecnologia! Eu estou investindo em bem estar, estou investindo em anatomia, estou investindo em ergonomia, estou investindo em prazer. É esse conjunto de situações que o nosso móvel tenta transpassar para as pessoas que convivem no ambiente. Por aí você pode ver bem como é a Flexiv. Acho que isso é uma das primeiras situações que muda a maneira de se comercializar mobiliário. Esse é o diferencial, na base! ... Eu não posso dar a mesma solução a um escritório de advocacia ou a uma agência de publicidade. Não tem como!!!
É o conceito da personalização? Sim. Inclusive quando nós vamos fazer uma venda, o cliente não pesquisa os nossos móveis e faz uma pesquisa de preço. Nós fizemos um briefing com o cliente.
O que se percebe é que na implantação de um escritório, a decisão sobre a compra do mobiliário é a última e em alguns casos não é bem orientada! Muitas vezes não existe uma preocupação com o usuário em si e com o tipo de atividade que ele exerce...
É um processo que envolve muitas pessoas: o arquiteto, o médico do trabalho, o pessoal de segurança do trabalho, os ergonomistas e o departamento de Rh, que impulsiona toda a motivação. Eles fazem um trabalho lindo, que depois, vai prá mão do departamento financeiro e para o departamento de compras. No final eles pegam 3 fornecedores ou 10, dos 10 eles selecionam 3 e de um dos 3 eles compram o produto. Então, todo aquele investimento que não está aparecendo e que foi alto, altíssimo, por que teve n pessoas da empresa envolvidas nisso, é jogado fora!
As decisões acabam sendo em função de custos?
Sim. A importância em valorizar bem certo cada ponto que foi pré-discutido, pré-apresentado, se perde. Faz-se uma opção por preço ou por distância e até mesmo por outros requisitos que são de compra, pertinentes a área de suprimentos.
E mesmo assim, quando se chega no usuário final, que tem o mobiliário disponível adequado as suas necessidades e aos fatores ergonômicos, falta conscientização no momento do uso. Como vocês lidam com isso?
Nós temos um procedimento dentro da nossa metodologia que é a entrega técnica. E a entrega técnica acontece em dois momentos: o momento em que o produto é entregue e está conforme. Depois de uma semana que o escritório está funcionando, é feita a entrega técnica para alguns coordenadores, onde cada produto é apresentado para as pessoas que vão usá-lo. Mas não podemos interferir muito nesse processo. Isso depende, na maior parte do tempo. da própria empresa que adquiriu o produto e do trabalho do pessoal envolvido em segurança do trabalho.
E vocês têm um feed back dos usuários?
O lançamento do nosso produto só termina quando tiver a devolutiva do nosso cliente. Quando nós lançamos um produto novo, ele vai para a loja. Depois de 3 meses desse produto sendo comercializado, nós contactamos um ou dois clientes de setores diferentes e fazemos uma avaliação in loco. Aplicamos um questionário, que em muitos casos não ajuda muito!! Também pedimos licença para tirar fotos e ficar lá observando e registrando tudo. A partir daí se identifica o que é relevante, que deve ser alterado no produto. Essa apreciação é necessária. E tem a questão da usabilidade também! A gente imagina que quando projetou alguma coisa, as pessoas vão fazer como a gente e quando se chega lá, as coisas estão totalmente diferentes.
A Flexiv relaciona design e ergonomia com sucesso, inclusive já recebeu vários prêmios de design!
Sim. Nós temos prêmios tanto de design do produto, como de gestão de design. Nós ganhamos prêmios de concursos de design no Brasil e já mandamos muitos produtos prá fora do país. Prá nós, é uma satisfação muito grande, pois são os críticos desses concursos que validam o nosso trabalho.
Uma coisa que chama atenção é que, hoje em dia está se falando muito em sustentabilidade e isso tem sido abordado como ferramenta mercadológica das empresas. Eu acho que a primeira coisa que tem que se olhar é o indivíduo que está ali, que está usando o produto. Todos nós temos que usar o material correto, que cause o menor impacto ambiental, que seja possível de ter a engenharia reversa, de desmontar, de separar, de reaproveitar. Isso já é natural. Só que quando você olha o design, ele não está adequado a quem vai usá-lo. Aí o sentido se perde. Nós pertencemos ao ambiente natural e devemos ser os primeiros beneficiados do produto. Se existir esse benefício direto, o retorno vai existir. Caso contrário, a proposta vai morrer. Um produto pode ser bonito para catálogo, prá ter um certificado “ Y”, mas deve se considerar o impacto às pessoas.
Onde está concentrado o mercado da Flexiv?
Nós temos reconhecimento internacional. O nosso design já é global. Nós temos um produto que pode ser comercializado em qualquer parte do mundo. O que se percebe é que o mercado internacional, principalmente o americano, busca fornecedores de componentes e para nós interessa vender o nosso design. Já tivemos boas experiências em mercados internacionais, com bons resultados financeiros e para os próprios clientes. Mas, pelo tempo que demanda a burocracia de exportação, optamos por nos concentrar no mercado nacional.
Quantos profissionais estão envolvidos na área de design da empresa?
São nove pessoas, entre prototipistas e estudantes de design, coordenadas por mim (designer).
Qual é a metodologia de trabalho para o desenvolvimento do produto?
A nossa metodologia é a soma de várias metodologias. Nós usamos muita coisa da IDEO prá adquirir dinâmica e inovação, além de algumas metodologias acadêmicas. Considero que temos uma metodologia mutante, que se adapta aos parâmetros reconhecidos no meio acadêmico e produtivo. Em alguns projetos, temos que adaptar a ordem da pesquisa e a ordem da construção. Como base, temos a fase criativa, a fase de desenvolvimento, a fase de experimentação e a fase da análise e avaliação.
E com fica a pesquisa de materiais dentro de uma abordagem sustentável?
A pesquisa que nós fizemos, em termos de materiais, não tem muito segredo. Eu percebo que, o que deixa o produto mais sustentável possível é a possibilidade de desmontá-lo em quase 100%. Nós não temos um produto fixo. Conseguimos separar vários componentes fisicamente. O primeiro ganho com isso está na manutenção, na garantia e na flexibilidade na hora do transporte. Isso faz com que se utilize materiais dentro de uma característica de conscientização ecológica. E muita coisa que a gente usa no móvel hoje, vem da indústria automobilística. Nós estamos no rabo do cometa da indústria automobilística.
Em que sentido você coloca isso?
Até pela própria estruturação da equipe de design que tem junto de si a engenharia de produto. O departamento de design da Flexiv gerencia tanto a área de engenharia de produtos, como as áreas de engenharia de processos, de ferramentaria e de prototipagem. Isso é a gestão de design, que faz com que a gente consiga ir lá no carinha que tira a rebarba do produto e ele acaba sabendo por que está fazendo isso! Nós somos uma empresa pequena que tem essa possibilidade. Mas a nossa estrutura é muito similar a de uma indústria automobilística, apesar de não ser departamentalizada. Nós usamos o conceito de design estratégico. Aliás, o design é o que temos de mais estratégico na empresa. Acredito que. independente do rumo que a empresa tomar, o estúdio de design vai permanecer!
E como você vê a relação do design como ferramenta de inovação e estratégia para empresas pequenas, ou que estão surgindo agora?
Para mim, design é inovação! Senão, não é design! O limite da inovação pode ser mais curto prá uns e mais amplo prá outros. Nós pensamos o produto para 20 anos à frente. Daí a gente chega lá longe, há dois metros do chão! O grande desafio é que temos que viabilizá-lo. Aí temos que voltar no tempo e jogá-lo para apenas 5 anos à frente. Na Flexiv temos liberdade total para desenvolver as novas propostas. Mas a responsabilidade também é total! Um exemplo disso é a linha DR3: para realizar a pintura foi feito um grande investimento. Eu criei o problema e tive que dar a solução. E não foi só o investimento em si, tinha o treinamento também. A pesquisa durou 2 anos. A previsão de alavancagem de vendas era de 8 meses, mas após o lançamento, o produto estourou e está vendendo direto.
Quanto tempo em média vocês se dedicam ao desenvolvimento de um novo produto?
Eu estou na empresa há mais de 15 anos e tenho muita informação comigo. Tem muita pesquisa que já está incorporada. Isso facilita muito, Muitas vezes demora-se um ano prá fazer o que tem que ser feito, pesquisando e incubando as idéias e, de repente, em 20 dias surge o produto. Por isso eu digo que o designer é um ser abençoado: quanto mais velho, melhor! Quanto mais experiência ele tiver, melhor é! Diferentemente de um trabalhador braçal, que a cada ano que passa, sua performance diminui, nós trabalhamos com a criatividade e com o tempo, nossa performance aumenta.
Como você vê a inovação sob a ótica da propriedade intelectual?
Nós aprendemos a cada ano. Nós nos protegemos através de INPI, apesar de sabermos que é um processo falho. O registro de propriedade intelectual no Brasil é falho. A legislação está cheia de brechas, o que pode gerar processos traumáticos. Você tenta se proteger, mas tem empresas que fazem algo que você desenvolveu e nesse caso você só defende seus direitos com processo judicial, que, em alguns casos, resulta na interrupção da comercialização do produto. A base da patente é a pesquisa. É importante que a pesquisa de similaridade tenha uma abrangência internacional e que permita também registros internacionais.
E por fim, o que você considera o grande desafio do designer?
O grande desafio do designer é perceber em que momento do desenvolvimento do produto está o tempo correto para fazer o seu lançamento Eu não posso buscar uma tecnologia visualizando 20 anos à frente, sendo que as pessoas ou o ambiente do qual ela vai participar, não terão acesso a essa tecnologia nos próximos 5 anos. Saber avançar no tempo, retroagir no tempo e encontrar o tempo certo é um grande desafio para o designer.
Tem uma coisa muito importante, que tem a ver com design e tem a ver com arte: um projeto nunca termina! Assim como o pintor que nunca dá por terminada a sua obra, o projeto de design não tem fim! Mas a gente tem que parar em um certo momento!
E qual é o momento certo de parar?
Para mim, o momento certo é quando o produto já tiver agrupado o maior número de soluções para que ele seja um sucesso de mercado. Se isso ocorrer, o designer desempenhou muito bem o seu papel!
Obrigado Dari pela sua entrevista!
Designer Dari Beck – Estudio Flexiv – Curitiba – PR
Bacharel em Design de Produto, com Pós Graduação em Gestão Estratégica da Produção. Destaca a experiência de 2 anos como menor aprendiz do Senai- RS.
Contato: dari@flexiv.com.br Estúdio Flexiv de Design
Entrevista concedida a Ms. Kátia V. Cañellas, Arquiteta, em - 18/02/2009
Imagens: Cezar Lemos.