A utilização de sementes, fibras e produtos da floresta para a fabricação de acessórios de moda é antiga. Mas só nos últimos anos o segmento de biojoias - nome que vem da aplicação de produtos biodegradáveis na produção de colares, anéis, brincos, pulseiras e outros adornos - amadureceu, entrou pela porta da frente no mundo fashion e atraiu designers e artesãos que provam, com muito talento, que biojoia não é só coisa de índio. "Há cerca de dez anos houve uma explosão no uso de sementes, influenciado pelas telenovelas. Passado o modismo, quem se diferenciou, especializou-se e buscou inovação, manteve os pés firmes no mercado", explica Aldemar Maciel, gestor de projetos do Sebrae no Estado do Acre.
Segundo ele, houve uma revolução do conceito da biojoia, que tirou as sementes da mira de camelôs e produtores sem preocupação com acabamento. A força de quem apostou no design está na qualidade dos produtos e nos atributos da sustentabilidade. Quem produz, preocupa-se com a procedência da matéria-prima, certifica-se de que o manejo é sustentável e também bane quem utiliza trabalho escravo ou subescravo para o manejo florestal. "Outro diferencial está em agregar valor às peças, ao incorporar metais, cristais e pedras semipreciosas", comenta Maciel.
Divulgação
Sementes de açaí, pintadas, ficam parecendo turquesa: riqueza da floresta No Acre, a produção local marcou uma virada para quem vive do manejo florestal. Antes dedicados a colher os produtos da floresta e vender para os fabricantes, os acreanos buscaram em cursos a capacitação para produzir suas próprias joias. Pelas contas de Maciel, há atualmente no Estado cerca de 90 produtores, que ganham entre R$ 2 mil e R$ 18 mil por mês. Exportam perto de 15% da produção e avançam no passo da sustentabilidade. "A diferença nos preços depende da criatividade de cada um e dos materiais utilizados. Tem quem trabalhe com ouro, prata e pedras semipreciosas", avisa.
A amazonense Maria Oiticica descobriu sua verdadeira vocação na produção de biojoias. Jornalista formada, ela descobriu que poderia seguir outro caminho quando ainda morava em Manaus (AM). Em 2002, precisou presentear amigos estrangeiros e partiu para as compras de bijuterias nos mercados da capital do Amazonas. Decepcionada com o acabamento das peças e com a estética que dominava lojas e camelôs, resolveu comprar produtos para desmontar e refazer em casa. "As peças ficaram lindas", relembra.
Quando desembarcou no Rio de Janeiro, em 2003, montou um ateliê em casa e produziu algumas joias que encantaram as amigas. Desde então, os pedidos não cessaram. Tentou vender por meio de lojas e sentiu na pele as dificuldades de quem atua por intermédio do varejo. "As peças não são valorizadas, todos querem produtos em consignação e não tomam cuidado com a exposição."
Sem perder o ânimo, decidiu ela mesma vender a produção. Logo caiu no gosto de estilistas e da mídia, que viu em seu trabalho originalidade e atributos bem brasileiros. Em 2005, adornou modelos em desfiles do Fashion Rio e começou sua escalada. "Também participei de muita exposição", avisa.
Com o sucesso de seu trabalho, teve de abrir uma empresa e montar um ateliê. Emprega hoje 30 pessoas e pretende faturar R$ 2 milhões neste ano. Fabrica em média 3 mil peças por mês, mas está preparada para dobrar a produção. Entre as estratégias para expansão, encarou tocar projetos sociais que visam a capacitação de artesãs. O trabalho de destaque de Maria é o de geração de renda para mulheres com filhos hospitalizados. Ela capacita quem passa a maior parte dos dias dentro de instituições de saúde com seus filhos.
Enquanto acompanham os doentes, essas mulheres ganham dinheiro montando os colares desenhados pela artesã.
Maria vende seus produtos em três pontos próprios, mantém preços para atacado e exporta cerca de 10% de tudo o que fabrica. Suas peças custam de R$ 28,00 a R$ 1.800,00 e podem ser encontradas no Brasil e EUA. Entre as metas está a de explorar o mercado europeu e reforçar o comércio exterior, que já foi responsável por 50% das vendas, em tempos pré-crise.
"Trabalho com a prata, que agrega valor às peças e as tornam diferentes."
A mistura de materiais também é a especialidade da designer paulistana Márcia Mutanen Tai. Entre elas está a utilização de chifres, que são descartados em frigoríficos. Exigente quando o assunto é fornecedor, ela só compra produtos de manejo sustentável. Produz 300 peças por mês e já exporta 80% da produção. "Minha estratégia é sofisticar. Aposto na beleza das sementes e tenho atraído estrangeiros, principalmente os norte-americanos", conta Márcia.
Com preços que vão de R$ 40,00 a R$ 80,00, as biojoias da paulistana também são produtos garantidos em lojas de souvenir, com foco em turistas. Para transmitir os atributos de sustentabilidade a seu negócio, além de garantir a procedência da matéria-prima, ela aposta em uma parceira com a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) que prevê a montagem de peças em oficinas da instituição.
Exuberância é a marca da alagoana Patrícia Moura, que se estabeleceu como artesã no Recife (PE) e, há quatro anos, ganha a vida produzindo biojoias. Suas peças misturam fibras naturais, sementes, cascas, capim dourado, madrepérolas e pedras semipreciosas. Chefe de cozinha, pintora e formada em comunicação, ela também encontrou sua vocação lidando com produtos da natureza. Produz cerca de 1,2 mil peças por mês, com preços que variam de R$ 5,00 a R$ 170,00. Conta com uma rede de representantes em Recife, Porto de Galinhas (PE) e Praia da Pipa (RN). No mercado externo, vende em Lisboa, em Miami e Portland. "No verão do hemisfério norte, exporto bastante para lá", afirma.