O abuso da manipulação digital na fotografia que temos visto nos últimos tempos está distorcendo fotos e livros de regiões e animais que conhecemos muito bem. Cenários maravilhosos e cores vibrantes que dispensam qualquer interferência pós-clique. Um olhar cuidadoso, um clique no momento certo e pronto, o lugar ou o bicho estaria bem representado! Mas temos visto imagens tão exageradamente manipuladas que se pergunta o porquê daquilo tudo. Por que intensificar falsamente as cores de uma ave ou inseto que já são naturalmente coloridas? Por que falsear cenas inserindo elementos? Muitas vezes, fazem interferências sem a mínima necessidade.

Na época dos filmes, quando por diversas vezes acompanhávamos a digitalização dos cromos nos bureaus de fotolitos, já existia a premissa de que tratamento de imagem não é manipulação. Tratar uma imagem era recuperar informações da foto que se perdia no escaneamento. Assim, era normal mexer levemente no brilho, contraste, curvas e nitidez da imagem, com o simples propósito de trazer de volta as características da foto, que por sinal estava nas mãos do técnico servindo como referência. Mas não havia alteração da cena original.
Na manipulação já era sabido que a realidade seria mudada. Inserir elementos dentro da foto, alterar a cena original eram ações próprias de uma foto manipulada. Até mesmo limpar as ‘gordurinhas’ de fotos sensuais de mulheres era considerado manipulação. Tais alterações eram mais comuns na fotografia de moda e publicidade, já que eram produzidas com um fim específico e comercial.
Mas parece que hoje a manipulação dominou também os âmbitos da fotografia ambiental, e aves possuem agora cores exageradamente saturadas, fotos de campos e vales são dominados por animais que não estavam lá, insetos são cobertos por tantas texturas e detalhes, que talvez nem eles mesmos se reconheceriam nas fotos. Isto sem contar na fusão de imagens, unindo dois lugares num simples clique do teclado. Lugares que a própria geologia nem teria como colocar lado a lado.
É evidente que a fotografia digital foi constituída para ser trabalhada num software, é algo como a revelação dos tempos idos; não tenho nada contra isto, mas alguns critérios devem ser mantidos e talvez esteja na hora de diferenciar o fotógrafo do “técnico em photoshop” ou imagemaker. O fato é que manipular uma foto, sugerindo ser a verdadeira realidade fotografada, é de alguma forma iludir (para não dizer enganar) o leitor. Mas um fato deve ser lembrado: aquele que deseja ser fotógrafo de natureza, imbuído da responsabilidade de compartilhar verdadeiramente o mundo que vive, é também um leitor. E, portanto, está sujeito a ser enganado. Só resta saber se quer proporcionar aos outros uma sensação que talvez não queira para si mesmo.
Fonte: National Geographic Brasil
Receba nossas notícias e novos cursos ou eventos via rss!
assinar rss de notícias assinar rss de cursos e eventos