É bastante comum encontrar pelas avenidas chinesas ciclistas e carregadores a cruzar o trânsito de carros transportando pilhas e mais pilhas de mercadorias de todos os tipos, formas e tamanhos.
Foi ao deparar com um deles que o fotógrafo francês Alain Delorme teve uma espécie de mal-estar.
De dentro do táxi, percorrendo o centro de Xangai, a maior das cidades da China, viu um senhor levando uma inacreditável quantidade de caixas coloridas na garupa.
Em contraponto com os prédios, o trânsito caótico, a barbeiragem do motorista e aquela explosão de cores, seu estômago embrulhou.
"Naquele momento eu tive a minha percepção do país, com a oscilação entre a modernidade inebriante e a simplicidade da sua população nas ruas, além da efervescência e do seu permanente estímulo de sentidos", conta. Alain decidiu fazer um ensaio e escolheu justamente essas "pessoas-formigas" para retratar a nação mais populosa do mundo. "Quis fugir dos clichês, dos aglomerados de gente, do trabalho nas grandes fábricas. Procurei focar nos indivíduos obrigados a se adaptar a uma China comunista que se transformou na fábrica do mundo, o Eldorado da economia mundial."
As mercadorias empilhadas em bicicletas e carrocinhas frágeis mostram um país que sustenta a sociedade consumista com seus produtos em série espalhados por todos os continentes. Mesmo que o leitor já tenha percebido ao observar as fotos dessas páginas, vale esclarecer: a quantidade de objetos e as cores retratadas por Alain foram forjadas no Photoshop com uma pitada de humor e uma outra de poesia. Propositalmente, ele diz, para chamar a atenção das pessoas. "Ao exagerar a realidade podemos encorajar novas reflexões sobre ela".