Hoje, mais precisamente às 15h, começa a sair a nova linha de gibis da DC Comics, segunda maior editora de revistas em quadrinhos dos EUA.
O lançamento será para todo o mundo, em formato digital, através do app da DC que atende tablets, celulares e outras plataformas. Versões em papel continuarão a ser comercializadas — destas, aguarda-se vendas de pouco mais de 200 mil exemplares. Assim como aconteceu com os livros digitais e as livrarias, os donos das lojas de quadrinhos e as editoras concorrentes dizem que o lançamento simultâneo digital/impresso é um passo decisivo em direção ao fim do mercado de quadrinhos dos EUA.
O Mercado de Quadrinhos dos EUA
Criado nos anos 70, o direct market foi a forma encontrada para as editoras de quadrinhos continuarem a existir. As revistas são anunciadas três meses antes de sair, as lojas têm, então, cerca de dois meses para fazer seus pedidos e a editora pode ajustar a tiragem à demanda. Diferente do nosso mercado de bancas, o encalhe fica com a loja. Enquanto nos primeiros anos era o sistema ideal para as editoras experimentarem projetos fora do tradicional, a queda nas vendas fez o direct market virar a única maneira de distribuir gibis nos EUA. Faz tempo, por lá, que não se vê gibi em banca de jornal, farmácia e supermercado, os pontos de venda em que eles começaram a fazer sucesso.
Sucesso
Há vinte anos, uma revista dos X-Men bateu o recorde de vendas com 8 milhões de exemplares (registrado pelo Guinness). As editoras cancelavam séries que baixavam dos 100 mil em vendas. Hoje, alcançar os 100 mil é motivo para distribuir release. Mas estes números pouco importam. A DC não tem papas na língua em dizer que só existe com os fins de manter um arquivo que pode gerar filmes, desenhos animados, videogames, toalhas de praia, cobertura para bolo — leia-se “coisas que realmente vendem” — a partir de suas histórias e personagens.
Personagens
Se o sistema dos gibis dos EUA valesse para a literatura, as livrarias anunciariam a chegada de mais um volume de A excêntrica Família Glass, ao invés de um novo J.D. Salinger. E J.K. Rowling teria que criar três Harry Potters por mês para pagar as contas. O sistema baseia-se na popularidade dos personagens: pedacinhos de imaginação em quatro cores que são incontestável propriedade intelectual da editora. Para espremer mais histórias, ininterrupta e mensalmente, por décadas a fio (73 anos no caso do Superman; do Batman, 72), a editora se vê obrigada a contratar autores.
Autores
Os escritores e desenhistas recebem pouco, se comparado aos mesmos cargos nas indústrias de cinema, TV, games, publicidade… e quase todas as outras. A principal motivação é o amor juvenil/nostálgico pelos gibis (e/ou morar em país onde a taxa de câmbio lhe é favorável). Uma vez que outra, acontece de um gibi fazer sucesso porque o escritor ou o desenhista, ou os dois, são bons. Mas isto é falha no sistema. Quem faz as boas histórias são os bons personagens. Absurdo pensar que o motivo da história ser interessante ou vendável seria um bom autor.
Se você não lê gibis de super-heróis, embora todo este sistema dos comics acabe influenciando os quadrinhos “de livro” — e, acima de tudo, de autor — como os que saem pela Quadrinhos na Cia. É um dos motivo, aliás, pelo qual eles se diferenciaram em graphic novels. Existem outros sistemas possíveis?
Bom, Tintim ainda rende muito para suas editoras, Hergé não é um nome estranho às crianças francesas e belgas, e os descendentes não têm do que reclamar. Tem exemplos similares no mercado franco-belga, japonês e até nos autores que conseguiram funcionar fora do sistema nos EUA. Seja digital, de papel, direto ou indireto… o problema do mercado não está aí. O furo é mais embaixo.