O lote estreito motivou a criação de elementos arquitetônicos que dão ritmo ao projeto, como a parede verde, o espelho d’água e as áreas de pés-direitos contrastantes.
O denso muro verde torna-se ponto de fuga dos espaços internos.
Convidado a analisar o terreno previsto para a instalação do restaurante Kaá, em São Paulo, o arquiteto Arthur Casas julgou-o conveniente, entre outros aspectos, pela proximidade do Parque Ibirapuera. Sua ideia era criar um ambiente para longa permanência, relaxante, que fizesse menção a um cenário não urbano e escapista.
A inspiração era compatível com o contexto da implantação, embora os usuários do parque não tenham se tornado o público principal do restaurante.
Localizado em meio a uma região entrecortada por edifícios comerciais e residenciais, o projeto se oferece como feliz contraponto ao atribulado cotidiano da grande cidade.
Seu elemento mais evidente é a generosa parede verde que percorre praticamente toda a extensão longitudinal do restaurante. Com paisagismo inspirado no cenário primitivo de São Paulo, o da mata atlântica, ela é o ponto de fuga dos ambientes de estar e refeições, configurando escala ao mesmo tempo intimista e grandiosa. O denso muro verde parece exceder os limites de sua superfície, dada a proeminência das espécies naturais de que é constituído.
Arthur Casas destaca a linguagem racional da edificação. A estrutura metálica é aparente; a fachada singela nada revela dos interiores; os materiais adotados são naturais e a setorização, estanque. Como resultado das características do lote, estreito e profundo, a sucessão dos ambientes ocorre em zonas bem delimitadas, em muito definidas pela paginação dos revestimentos e pela distinção de pés-direitos.
O arquiteto explica que a escolha de materiais esteve condicionada à ideia de criar um espaço lúdico, feito com materiais brasileiros contemporâneos e primitivos, como a palha, e objetos que fazem referência à cultura indígena. Um mezanino para a área vip foi posicionado na lateral oposta à parede verde e, assim, surgiram dois setores de ocupação paralelos. Num deles, o pé-direito é duplo e a cobertura, retrátil, como se se tratasse do quintal de uma grande casa. Na lateral oposta, a altura simples dos interiores é marcada por grandes poltronas, no ambiente de espera.
A luz natural é de fundamental importância para o projeto. “É exceção, em São Paulo, restaurantes que sejam tão interessantes durante o dia quanto à noite. No Kaá, a iluminação proveniente da cobertura translúcida cumpre esse papel”, relata Casas.
Interessante também é a sucessão de elementos arquitetônicos de grande escala ao longo do eixo longitudinal, o que reverteu a monotonia que poderia advir do comprimento do lote. Além do elemento paisagístico, o bar rebaixado e a estante de pé-direito total, duplo, dão ritmo ao projeto, contrapondo-se sutilmente à linguagem racional de que fala o arquiteto.